domingo, junho 01, 2008

A IMPUREZA DA CONQUISTA


Hoje, 60 anos após sua morte, as cinzas da Grande Alma,

o Mahatma Ghandi, foram jogadas ao mar

“ A bíblia tem quarenta e cinco capítulos

Tratando da preparação do povo judeu

Para a travessia do deserto”

SILAS MALAFAIA EM SEU PROGRAMA DE TV DIÁRIO


“ Proclamar as próprias convicções,

notadamente diante das criaturas que se nos façam adversas,

é coragem da fé, no entanto,

semelhante afirmação de valor não se restringe a isso.”

MÃOS UNIDAS
FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
PELO ES
PÍRITO DE EMMANUEL


“ As Palavras Me Escondem Sem Cuidado”
MANOEL DE BARROS

Existe na conquista, uma brutalidade sem tamanho. A simples pretensão de ter o outro já indica a intenção de pô-lo a disposição de nossas crenças, verdades e/ou caprichos. Conquistar é por o outro sob o julgo da nossa vontade e esta é a maior de todas as verdades, pois é nossa, aflora vinda de nossas mais profundas entranhas e gera o famigerado desejo – Um pecado herdado do criador.

Existem diversas formas de conquista. A História Universal, nos mostra com detalhes o sangue, as flores, os idílios, as paixões e a solidão das conquistas.

Uma das mais violentas e covardes formas de conquista é a religiosa. Aqui é que se pode encontrar uma força e coragem portentosa na arte de subjugar, pois que desconsiderando a etnia, a cultura, a crença e a paixão do outro, avança sobre este e o ataca com a força dos leões se for preciso impor força física, com a sutileza de Íago se forem necessárias a farsa e a falsidade precisa, com a leveza de Jesus, Gandhi e Madre Thereza de Calcutá se a tática for necessária a inclusão da total força dos sentidos e máxima exploração do subjetivo e ainda, se a força física, a sutileza da falsidade precisa e a leveza da exploração do subjetivo falharem, haverão de convocar a fé advinda da esperança na espera, o sagrado proveniente dos testamentos, a predestinação e o livre arbítrio, força maior de um milagre da imaginação de Santo Agostinho.

A mais linda das conquistas é aquela que se privilegia do amor. Mesmo este sendo um sentimento de poder, é possível que seja puro das intenções e das nervuras criadas pela vontade religiosa. E assim, através da pureza d´alma vai se dando, numa inter relação de trocas, num refluxo intermitente entre o dar e o receber, que confundem a razão, tornando-a subjetiva e apaixonantemente sublime para duas ou mais relações interpessoais.

Na mais linda das conquistas encontramos o ambiente da paixão sublimado no universo do amor com a individualidade preservada. As texturas da paixão e as ações do amor não extinguem, não deturpam, não destroem e não desconsideram as características antropológicas do outro.

É milenar a necessidade de poder. Esta vontade antecede o que se chama de civilização e talvez tenha sido a mola da gestação do que se conhece como Estado. O poder se dá diante do avanço por sobre o outro. Este avanço pode ser político, econômico e social e se relaciona com a religião, com a etnia, com a cultura e com a educação e é na capacidade de se inter relacionar com a diversidade destes micro universos de poder que se dá a conquista. O processo sempre foi laico e assim sendo foi sempre confuso e diluído no que se ousou chamar de amor, pois as religiões sempre estiveram enterradas até o pescoço no esforço de se mostrarem assim – a mais perfeita entrega a uma divindade salvadora que é a pureza do amor – nesse mote e a galope avançaram por sobre o homem e suas fraquezas e foram e são ainda a maior de todas as causas de guerras no mundo inteiro pelo simples corriqueiro fato de serem uma capa, um artifício de poder, desde a sua macrorelação com o Estado até a sua micro relação com o ser humano.

Este texto tem a arrogância da conquista pois dilui-se da intenção de falar do açoite que representa este passo e perde-se na articulação e na estratégia estilística de sua construção pois que se utiliza da mesma forma e formato dos grandes conquistadores. É como Splenger fala, o conquistado absorve a força e táctica do conquistador.

Não me arremesso a ser o certo por este texto, pois que, não me encontro com a certeza absoluta dos “fundamentalistas”, aliás tanto quanto o cantor............, eu tenho medo, quase pânico de quem tem muita certeza.

Este texto segue o poema “ Heresia” que foi enviado a meus amigos do Orkut e a minha lista de e-mail.Houveram muitas críticas. “ Heresia” é só um poema e este é só uma crônica e pode ser sim, que minha ‘ descrença entorte a minha visão da experiência religiosa e que o ato de fé seja sempre por mim retratado como uma manifestação a sr lamentada da grotesca miséria humana”, assim, como Veríssimo fala de Felini, em Banquete Com Os Deuses, mas tal corrupção se dá com o fim da sutileza, da inocência e vem ainda do senso de desamparo, ainda citando e roubando as palavras de Veríssimo, que adquiri com a paixão pela História. Meu texto exorciza minha revolta e nojo e pedir e ou exigir que as imagens, texturas e pensares que crio sejam outros é pedir mais, do que eu quero e posso, dar.

quinta-feira, maio 01, 2008

Sobra de Saudade

Eu me apresento:
Aos presentes que nunca ganhei
Ao me comportar a espera da recompensa que não vem
Ao último copo que quebrei
Ao ônibus que passou e eu não peguei
Aos lugares lotados, justo na minha vez
Ao progresso apressado que veio e eu como sempre pouco me importei
Eu me apresento e mando lembranças:
Aquela menina que só soube me amar uma única vez
Mas que ainda assim telefonei
Ao arrepio no corpo que procurei
Ao grito no vazio que não dei
Ao choro preso que quase despeijei
Ao sonho que disperdicei, consumindo desejos
Ao cair... Mas não poder dizer: - Me joguei
Ao tentar me achar
Mas ter medo de se perder
AO CONFORTO DE SI MESMO QUANDO SE ESTÁ SOZINHO
AO CARINHO QUE SE FAZ AO SUSPIRAR (QUASE FALTANDO AR)
Ao querer mais de uma noite, pois ela dura pouco p'rá quem sabe viver
A sobra de saudade que me fez acordar p'rá você e escrever
A falha no lembrar que por vezes me fez de vocês, esquecer
As palavras que pensei
Mas nunca consegui dizer
As mentiras que já contei
Ao sangue de soco bem dado que nunca tirei, nas brigas que causei
As pessoas que nunca gostei
Aos foras que já tomei, amores que inventei
Aos saltos que ousei
Aos conceitos e preconceitos que já guardei e desprezei
As desculpas que nunca pedi, nem dei
Aos encontros que dispensei
Aos corpos que quase me apaixonei
Mas pesei e no fim só usei
Eu, hoje, só me apresento:
A você que desde sempre amei

Alline ♫

domingo, abril 20, 2008

ARTE INDIANA E KHMERIANA

ARTE INDIANA E KHMERIANA

Deve-se entender como arte indiana aquela que se manifestou não apenas na Índia, mas também na Caxemira, Ceilão, Nepal, Tibete e Indonésia. O modelo, entretanto, foi forjado no país que lhe dá o nome e difundiu-se a partir do reino vizinho, o Khmer, pelos demais. As origens da arte indiana remontam às invasões dos arianos, no século VII a.C., que depois de devastar a civilização do vale do Indo impuseram sua língua, o sânscrito, e seus escritos Religiosos, Os Vedas. Com a dinastia dos Mauryas começou um período de esplendor cultural.

O budismo, apesar de posterior ao bramanismo e contemporâneo do jainismo, estabeleceu os princípios da arte indiana ao longo de toda a história, desde seu surgimento. A necessidade de difusão desse movimento religioso levou à adoção de determinados parâmetros de representação, que depois foram estendidos às outras religiões. A arte indiana também recebeu
influência persa, principalmente nas cortes, sob o reinado de Asoka (274-237 a.C.). No
século I d.C. surgiram as três escolas mais importantes da Índia.

A de Gandhara e a de Mathura, no norte; e a de Wengi, no sul. A primeira foi a mais importante, na medida em que, influenciada pela arte grega, criou a chamada arte grecobúdica e foi também responsável pela primeira representação figurativa do príncipe Buda, sentado e com auréola, até
então simbolizado pelo vazio. O chamado período clássico começou com os reis guptas, que revitalizaram notavelmente a pintura e a escultura e renovaram as formas arquitetônicas, retomando a tradição indiana, deixando de lado o budismo.

A arte indiana começou a se expandir a partir da Idade Média e encontrou seu imitador mais respeitado no vizinho reino do Khmer, no Camboja. Os artistas desse reino apostaram, entretanto, em representações mais rígidas, de modo geral estritamente simétricas e despojadas do sensualismo e erotismo do modelo. Especial relevância tiveram os templos piramidais,
que se difundiram de lá para o resto da Ásia, e os relevos, de superfícies menos carregadas, aparentemente devido à falta de conhecimentos técnicos de seus escultores.

sexta-feira, março 21, 2008

O DUELO PERFEITO

O DUELO PERFEITO

Hoje eu acordei pra celebrar a vida,

Fazer parte de uma história esquecida.

Enfeitar um móbile no berço

E sorrir das suas voltas imprevistas.


Acordei para relembrar os fatos,

De um tempo passado,

Comemorar cada enterro como se fosse o meu próprio.


Beijos nostálgicos,

Olhos fechados,

Erros marcados,

Como um “tic-tac” errado.


O último adeus levo a ti.

Falta, sei que irei sentir.

Falta das alegrias vividas,

São tantas dores e noites sofridas,

Com a presença da agonia de sua ausência.


Um samurai errante,

Em busca do duelo perfeito.

Somos guerreiros,

Ferindo terceiros.


Indiretamente, sei que fiz!

Trago a ti, uma agonia infeliz.


IVAN LIMA

ISA LIMA

HELIO ANDRADE

domingo, março 02, 2008

ARTE OCEÂNICA - IMPRESSÕES ANTROPOLÓGICAS

ARTE OCEÂNICA

A arte da Oceania constitui um conglomerado de expressões artísticas de grande diversidade. Sua inclusão na história da arte é bastante recente, data deste século, quando fauvistas e expressionistas se maravilharam diante da liberdade criativa que expressavam as primeiras peças chegadas ao Velho Continente, vindas das ilhas paradisíacas dos mares do sul. Alguns, como Gauguin, não titubearam em se mudar para lá por algum tempo, em busca de novas
motivações temáticas e técnicas.
São quatro as etnias principais encontradas no continente da Oceania, vindas provavelmente da Índia e Indonésia: os australianos, nos desertos do continente, os papuas, na ilha da Nova Guiné, os melanésios, no arquipélago da Melanésia, e os polinésios, na Nova Zelândia (os maoris) e ilha de Páscoa. Embora todos tenham origem asiática, cada um desenvolveu diferentes técnicas e disciplinas artísticas submetidas em parte aos condicionamentos geográficos, climáticos e materiais de cada região.
Assim, embora no caso dos arquipélagos da Polinésia e Melanésia os materiais utilizados sejam variados - fibras vegetais, ossos, corais, penas de pássaros, madeira e conchinhas -, o mesmo já não ocorre com os aborígines australianos, limitados pela escassez do deserto. Também é possível
detectar diferenças estilísticas consideráveis, inclusive entre os povos mais próximos: os australianos se preocupam com o simbolismo religioso, os papuas acentuam a expressividade, e os polinésios, menos conservadores, buscam a novidade.

ARTE AFRICANA - IMPRESSÕES ANTROPOLÔGICAS

ARTE AFRICANA
Existem muitos preconceitos com relação à arte africana e à África em geral. A denominação genérica de africano engloba maior quantidade de raças e culturas do que a de europeu, já que no continente africano convivem dez mil línguas, distribuídas entre quatro famílias, que são as principais. Daí ser particularmente difícil encontrar os traços artísticos comuns, embora, a exemplo da Europa, se possa falar de um certo aspecto identificador que os diferencia dos povos de outros continentes.
O fato de os primeiros colonizadores terem subestimado essas culturas e considerado suas obras meras curiosidades exóticas, provocou um saque sem sentido na herança cultural desse continente. Recentemente, no século XX, foi possível, graças à antropologia de campo e aos especialistas em arte africana, organizar as coleções dos museus europeus. Mas o dano já estava
feito. Muitos objetos ficaram sem classificação, não se conhecendo assim seu lugar de origem ou simplesmente ignorando-se sua função.
E isso é muito importante para a análise da obra. A arte africana é eminentemente funcional. Mais ainda, não pode ser entendida senão com base no estudo da comunidade que a produziu e de suas crenças religiosas. Basicamente os povos africanos eram animistas, prestavam culto
ao espírito de seus antepassados. Outros chegaram a criar verdadeiros panteões de deuses, existindo também os povos monoteístas. Some-se a isso a influência dos primeiros colonizadores portugueses, que cristianizaram várias regiões.
O auge da arte africana na Europa surgiu com as primeiras vanguardas, especificamente os fauvistas e os expressionistas. Estes, além de reconhecer os valores artísticos das peças africanas,
tentaram imitá-las, embora sempre sob a ótica de suas próprias interpretações, algo que colaborou em muitos casos, para a distorção do verdadeiro sentido das obras.
Entre as peças mais valorizadas atualmente estão, apenas para citar algumas, as esculturas de arte das culturas fon, fang, ioruba e bini, e as de Luba.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Valdemir Jose da Costa I

Manual prático de como se fazer um poema em dez lições:

1ª. Lição: O poeta precisa se desligar do mundo, ficar em coma, de preferência físico, mas se não der pode ser alcoólico. Escrever como se estivesse em uma cadeira elétrica e se eletrocutasse a cada 5 segundos.

2ª. Lição: O poeta não pode ter medo de nada, o poema precisa ser poderoso, meio mafioso, o poeta precisa escrever como se estivesse se afogando em algo gostoso.

3ª. Lição: O poeta precisa escrever algo diferente, inusitado e ao mesmo tempo algo que todos conheçam. Algo perfeito e raro como um diamante ou prático e comum como um rolo de barbante.

4ª. Lição: O poeta precisa ser incisivo, específico e ao mesmo tempo superficial. Falar de um assunto sem dizer coisa alguma e ser compreendido, falar de vários assuntos com o mesmo tema ou variar o tema, mas manter o assunto. Ser prolixo sem falar absolutamente nada.

5ª. Lição: O poeta precisa sair do nada e ir em direção ao infinito. Não se importando se no final o poema ficará feio ou bonito, na verdade o poeta não pode se preocupar nem com a sua própria vida.

6ª. Lição: O poeta não pode ter escrúpulos, não poupe ninguém, mate todos no final, afinal! Estamos em guerra contra o aqui e o agora. Não pense, nem mire, só atire. Se acertar tudo bem, se não vá embora.
7ª. Lição: O poeta não precisa entender o poema, poema não precisa ser entendido, nem explicado. Poema é para ser sentido, cheirado, comido, como olhos de peixe, manga madura e jiló. Poesia é pimenta! Não é alimento, não sustenta, como leite em pó.

8ª. Lição: O poeta deve desconfiar de tudo, o poema precisa ser sujo. Ser bosta na forma de adubo. Sórdido como o vôo perfeito do super-men, sagrado como NY, São Paulo, Greenwich e Jerusalém.
9ª. Lição: O poeta precisa ser sem vergonha, fumar maconha, injetar na veia, ouvir o canto da sereia, andar pelado, nadar suado, se embriagar com o nada e se afogar no vazio.
10ª. Lição: O poeta não pode procurar a verdade, ele precisa ser a verdade, maciço com como o granito, mole como pipoca. Ser de rio e de mar como uma pororoca.

Na verdade o poema verdadeiramente poético é superficialmente abissal, metodicamente visceral, é o arquétipo de si. É o bem e o mal mastigados na boca de um dragão. É a antítese do sim, mas não é um não.


Bloco domiciliar cinco Meriti, Estado Continente Rio de Janeiro, 06 de
Janeiro de 3495.
Valdemir Jose da Costa

sábado, dezembro 22, 2007

FANZINES

CORAÇÃO DE PAPEL

Vocês sabiam que houve uma época que não havia celular e tínhamos que ir para as ruas sem nenhum tipo de contato com ninguém? No máximo havia o Pager... Lembram? Lembram das fichas dos orelhões? Vocês lembram que antigamente não podíamos fazer cópias piratas de discos de vinil na nossa casa? Tínhamos que economizar nossos cruzeiros e cruzados para comprar o ultimo lançamento do nosso artista preferido? Ou no máximo gravar numa fita Basf? E vc´s lembram que antes dos blogs havia uma coisa chamada fanzine e que quando alguns malucos (isso me inclui) queriam “disseminar” cultura ou algumas idéias peculiares tinham que arrumar folhas de A4, grampeador, tempo, pesquisar textos em livros, criar textos, conhecer pessoas que também tinham textos, criar uma arte (as vezes de gosto duvidoso) e o mais interessante... Essas pessoas tinham que levar esse Frankenstein de papel ao encontro das pessoas... Isso mesmo... não eram elas que procuravam, nós que tínhamos que ser chatos e oferecer para os outros. Bom gostaria de prestar uma homenagem a todos os fanzines que ganhei e a todos os donos de fanzines que sempre buscaram expandir suas mentes no papel e expandir a mente dos outros pelo mundo afora. Abaixo fotos de alguns fanzines de um “distante pouco tempo”.

Um grande Salve para

SAGARANA (Ângela Nobre)

FOLHA CULTURAL PATAXÓ

POESIA E COMPANHIA (Thiago Mattos, Raquel e Reynaldo).

GAMBIARRA PROFANA

ATITUDE !

CENTRO DE INTERCAMBIO CULTURAL “MARTÍ POPULAR”

CAROÇO

INVASOR

Entre Outros


Helio Andrade

segunda-feira, novembro 05, 2007

HERIK ROCHA I

SÍNCOPE

Segue abaixo algumas obras do artista plástico, desenhista, músico (entre outras qualidades artísticas) Herik Rocha, apreciador de sk8, ex-guitarrista da banda "Meio Torpe", figura pensante e questionadora presenteia nosso querido blog com uma série de obras chamada SÍNCOPE, onde sua mente viaja por caminhos solitários e improváveis e onde vemos ondas do inconsciente impressos e navegando na net juntamente conosco.

apreciem abaixo nove obras. Viva a Cultura.

segunda-feira, outubro 08, 2007

EDGAR ALLAN POE

O CORVO
      (de Edgar Allan Poe)

    Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
    Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
    E já quase adormecia, ouvi o que parecia
    O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
    "Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.

    É só isto, e nada mais."

    Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
    E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
    Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
    P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
    Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,

    Mas sem nome aqui jamais!

    Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
    Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
    Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
    "É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
    Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.

    É só isto, e nada mais".

    E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
    "Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
    Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
    Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
    Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.

    Noite, noite e nada mais.

    A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
    Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
    Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
    E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
    Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.

    Isso só e nada mais.

    Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
    Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
    "Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
    Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
    Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.

    "É o vento, e nada mais."

    Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
    Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
    Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
    Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
    Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,

    Foi, pousou, e nada mais.

    E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
    Com o solene decoro de seus ares rituais.
    "Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
    Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
    Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."

    Disse o corvo, "Nunca mais".

    Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
    Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
    Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
    Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
    Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,

    Com o nome "Nunca mais".

    Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
    Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
    Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
    Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
    Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".

    Disse o corvo, "Nunca mais".

    A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
    "Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
    Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
    Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
    E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais

    Era este "Nunca mais".

    Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
    Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
    E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
    Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
    Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,

    Com aquele "Nunca mais".

    Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
    À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
    Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
    No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
    Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,

    Reclinar-se-á nunca mais!

    Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
    Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
    "Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
    O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
    O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"

    Disse o corvo, "Nunca mais".

    "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
    Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
    A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
    A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
    Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!

    Disse o corvo, "Nunca mais".

    "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
    Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
    Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
    Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
    Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"

    Disse o corvo, "Nunca mais".

    "Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
    Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
    Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
    Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
    Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"

    Disse o corvo, "Nunca mais".

    E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
    No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
    Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
    E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,

    Libertar-se-á... nunca mais!

    clique aqui e saiba mais sobre Edgar Allan Poe

    (TRADUÇÃO)Fernando Pessoa

terça-feira, setembro 18, 2007

ANDRÉ BRITO II

Revolucionários Africanos

Revolucionários Africanos

Durantes centenas de anos, o imperialismo europeu saqueou povos e se apoderou dos recursos naturais de diversas regiões do continente africano. O legado deixado por esta absurda exploração, resultou para milhões de pessoas daquele continente, em miséria, fome, doenças, guerras civis, rivalidades étnicas, ditaduras e dependência econômica, até os tempos atuais.

Porém, há que se lembrar dos mais ilustres filhos da África, aqueles que lideraram um processo de resistência contra o colonialismo, a partir das décadas de 1950, 60 e 70. Nomes como Patrice Lumumba, Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Steve Biko são imortais. Eis um pouco da história deles:

Patrice Lumumba

: Líder nacionalista africano e expoente da independência da atual República Democrática do Congo, liberto em relação à Bélgica. Fundou o MNC (Movimento Nacional Congolês) em 1958, sendo Primeiro-Ministro do país de junho a setembro de 1960. Passadas apenas dez semanas após sua eleição, seu governo foi derrubado, num golpe de estado e este herói vem a ser preso e assassinado sob tortura, em janeiro de 1961 pelas elites tribais apoiadas pela CIA dos EUA.

Amílcar Cabral

: Formado pelo Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa, funda o PAIGC - Partido Africano para a Independência da Guiné e do Cabo Verde, em 1959. Quatro anos mais tarde, em 1963 se inicia o processo de guerrilha de libertação nacional contra o colonialismo de Portugal. Em janeiro de 1973, Amílcar Cabral é assassinado na capital Conacri, por dois membros inimigos inflitrados de seu próprio partido. Após sua morte a luta se intensifica e a independência de Guiné-Bissau é proclamada em Setembro do mesmo ano.

Agostinho Neto

: Médico angolano, formado em Lisboa, que em 1975 se tornou o primeiro Presidente de Angola até 1979. Ganhou em 1976 na União Soviética o Prêmio Lênin da Paz. Desde 1962, foi presidente de honra do Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA), guerrilha marxista-leninista que lutou até a vitória contra o colonialismo de Portugal.

Steve Biko

: Líder do Movimento de Consciência Negra da África do Sul, morreu sob tortura, enquanto estava preso pela polícia sul-africana em setembro de 1977. Disse Nelson Mandela sobre ele: "Eles tinham que matá-lo para prolongar a vida do apartheid".

Eis agora um trecho de um poema de Agostinho Neto:


O Choro de África



O choro durante séculos
nos seus olhos traidores pela servidão dos homens
no desejo alimentado entre ambições de lufadas românticas
nos batuques choro de África
nos sorrisos choro de África
nos sarcasmos no trabalho choro de África


Texto por
ANDRÉ BRITO