O editorial abaixo também produzido em 2000 e escrito pelo já citado Leandro Zender, figuraça, camarada e um malabarista com ideias e argumentos, traz o ideário do La Carta Entrelinhas, uma ode ao consenso comum dos afortunados que não vivem na mesma sintônia da massa que segue entre chuteiras e migalhas e que clamam (a essa massa) que veja o obvio que pertuba e julguem-o. Vamos buscar nosso lugar nesta selva de animais ignorantes, afinal somos macacos evoluidos, somos humanos.
LEANDRO ZENDER II
EDITORIAL (do fascículo nº 1 do fanzine La carta Entrelinhas)
Suponhamos que numa mesa qualquer em uma birosca qualquer (ou num restaurante, sushi-bar, bistrô, ou seja, lá o que o seu refinamento ou não permitir) estejamos você, eu e mais uma meia dúzia de falantes, pensantes, talvez discursando, discutindo, discorrendo, discordando, descobrindo que somos na verdade, cegos e mudos. Nossa inépcia arancou-nos os olhos. Nossos ouvidos os tornaram moucos a arrogância e a pretensa. E as nossas vozes não se fazem mais ouvir, por pura e simples falta do que falar.
Nossa mesa percebe que há mais importantes causas e coisas que nossos próprios umbigos e mentes privilegiadas (?) com o debate em aberto, é possível chegar a mais e melhores conclusões a respeito do bem comum. Pode-se falar de política nessa mesa. Fale sobre os carecas de SP, sobre Nicéia Camargo, ecologia, cinema, arte, sexo, letras. Fale sobre o que vc ouve, sobre o que vê. Vej
a mais (sem trocadilhos, ok?). Pergunte. Duvide. Cobre-se. É bom aprender que temos sempre mais a aprender, até com quem sabe menos. La Carta se propõe a ver e dizer. Se propõe a sentir e externar. É o nosso parlatório. A chance de apurar o intelecto, quiçá o espírito. Desvendar os olhos e desobstruir os ouvidos. Corrigir a atitude e tentar ser menos inútil por aqui.
La Carta é a nossa mesa, de onde vamos tentar enxergar uma nova forma de ver, ouvir e falar. Não deixe de trazer a bebida.
Leandro Zender